3.2.06

A Última Manhã

Um dia, na saída da barbearia, ele sentou, sem mais nem menos, no batente de concreto sujo e velho em frente à casa de Jaíra. Ficou entretido com as crianças brincando, quase um Wherter, só que sem os infindáveis lamentos da prosa romântica de Goethe. Deve ter ficado por lá cerca de 2 horas sem ao menos trocar de canto. Todo domingo ele ficava pensativo. Era algo no sol desse dia que era diferente. Tinha 32 anos e trabalhava com o pai na Mercearia Menescau, da família. Não era muito de falar e não era casado. A única coisa que sempre o fizera sorrir com certa plenitude de espírito era ver o mesmo velho palhaço do circo fazendo as mesmas velhas cambalhotas que fazia quando ele era moleque. Quando tinha 11 anos queria ser palhaço. Quando fez 12 anos percebeu que não era engraçado.

Quando todas as crianças correram pra casa ao som daquelas velhas senhoras gritando "almoço" ele pensou em pegar o ônibus e partir. Não tinha dinheiro e nem coragem. Mas gostava de ficar sonhando e imaginando, como uma criança que espera um gênio da lâmpada, que ia pra bem longe. Grécia. Tinha ouvido falar alguma coisa desse lugar na televisão.

Nunca tivera acesso de grandeza como aqueles outros rapazes que via cortejando as moças e comprando amendoim na saída do circo. Nunca entendeu o que aquela gente via de tão divertido na roda gigante. Ele sempre ia sozinho e ia embora logo depois que o palhaço era expulso do picadeiro, todo sábado.

Baixou a cabeça por algum tempo e ficou brincando com o vinco das próprias calças. De repente reparou nas próprias mãos e percebeu como envelhecera. Mesmo a barba bem feita não escondia suas feições caídas e cansadas. Parecia mais velho do que realmente era. Não se achava triste, mas naquele momento teve a impressão de que nunca fora em busca de nada. Quando tinha nove anos insistira ao pai para levá-lo ao cinema, mas isso não era a mesma coisa.

Levantou de uma vez olhando para as árvores que ficava no caminho que ia até depois do postinho e dali para o resto do mundo que ele nunca vira. Correu pra casa colocou Três camisas, amassadas mesmo, Duas calças, e um par e meias numa sacola velha e surrada que pertencera a Valdomiro. Deu um beijo na mãe, que costurava uns fundilhos sentada na remendada cadeira de balanço, e saiu pela porta como um raio sem dizer uma palavrinha sequer.

O pai ficou alguns minutos calado, em pé, observando tudo com o livrinho de palavras cruzadas na mão, tentando entender aquele alvoroço. Também era um homem que não falava muito. Quando a lembrança da barulheira repentina deu lugar ao habitual silêncio sacro, que dava pra ouvir até o tic-tac mecânico do relógio que ficava na parede da sala, com seus pais de um lado e Jesus do outro, deu um pequeno suspiro e voltou pro seu banquinho junto da janela, de volta a "Mário Quintana, escritor".

“... E quando tudo parecia a esmo, e nesses descaminhos me perdia, encontrei muitas vezes a mim mesmo..." (Mário Quintana).

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