6.6.06

Bem me Quer, Mau me Quer!

"Mas eu que sou pobre
Espalhei meus sonhos pelo chão.
Pise com cuidado,
Porque pisas nos meus sonhos".


(Yeates)

Eu já me senti assim. Por muito tempo!

Descobri que os maiores amores do mundo foram os que não deram certo. Os amores que deram certo podem ser colossais, maravilhosos, únicos, mas os interrompidos, os frustrados, os abortados, ficam com todo o potencial de serem o que não foram, e esse estado é potencializado por nós, meros humanos. O Tornamos maior do que ele realmente é. Mesmo sem conhecer seus limites (se é que alguém, como eu, acredita que o amor TEM limites) ele é tão gigantescamente enorme, apenas, no que achamos que ele podia ser. Projetamos toda a frustração na potencialização dos sentimentos que foram barrados, e assim ele fica épico, utópico. E amores épicos e utopias amorosa são os maiores, justamente por não existirem.

Passei a duvidar do amor. Não do amor em sua essência, mas do entendimento, filosófico e pragmático, e do acontecer "amor". Só descobrimos o amor através de pessoas, e todos sabemos que pessoas interpretam coisas erroneamente, pessoas são corruptíveis, inclusive nós mesmos. Infelizmente, mas somos todos! Podem até argumentar comigo e dizer que a vida não se resume a encontrar um "grande" amor, que isso é apenas uma convenção culturalmente impressa na nossa sociedade, e todo esse discusso batido e pré-fabricado que compacta o amor em um pequeno pacote difícil de carregar. Mas eu fico com João Gilberto em "Wave": "... Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho".

Mesmo no meio do meu pessimismo tolo o amor me dá esperanças. Embora tenha um problema crônico com filmes de finais felizes, o amor é algo que se renova automaticamente. Uma hora estamos sentindo pena de nós mesmo, na outra estamos pensando nos beijos que trocamos e nos que ainda estão por vir.

Mas a maior injustiça com o amor é deixá-lo se transformar em algo mecânico, em algo cotidiano, em algo corriqueiro. É quase impossível de evitar isso, mas é uma dolorosa verdade. Uma hora amamos aquela pessoa, mas o tempo passa e chega momentos que amamos não estar sozinhos, e não mais a pessoa tanto assim. Seria bom se o amor fosse sempre visceral, imponente e avassalador. Mas não é! É apenas um monte de reações químicas. Ao mesmo tempo em que é mais.

Há perdas, há danos, mas também há sorrisos, há plenitude.

Eu não desisti do amor. Não conseguiria. Um homem não morre quando deixa de viver, mas quando deixa de amar. Chaplin tinha uma forma especial de transformar filosofias complexas em frases de efeitos bem perspicazes e populares. E eu acho que concordo com ele.

Um comentário:

Anônimo disse...

Ninguém deve desistir. O pior não é que ele se torne corriqueiro, cotidiano. O pior é que, quando acaba, torna-se difícil lembrar-se do tempo em que foi bom, em que foi pleno. A dor, que é mais recente, te impede de fazê-lo. É osso!
Mas o texto tá lindo!
=***