A Simplicidade e O Impostor
Podia ver todos dançando animadamente. Freneticamente. Sentia na atmosfera o cheiro da adrenalina noturna. Um cheiro doce e frio. De cor roxa. Distante e ao mesmo tempo impregnado no ar. Sabia como se portar, o que beber, o que falar. Evitava olhares diretos, mas checava cada centímetro do lugar, cada detalhe óbvio das pessoas. Pessoas falando alto. Conversas interrompidas. Histórias sem final. Podia sentir a euforia incontida emergindo em todos (e talvez até em si mesmo). Mas não se mexia nem tentava reagir bruscamente. Assistia a tudo de longe, num canto. Privacidade compartilhada. Um modelo voyeur holístico e quase heráldico, mas sem a aura estereotipada de maníaco obsessivo.
Tentava ao máximo não parecer entediado e até arriscava alguns enferrujados e contidos passinhos com só pé. Batendo o sapato no chão acompanhando desastrosamente a música que saia escandalosa do som no palco. Era comum, mas mesmo assim ele achava um fenômeno social bem estranho. Todos em pé, interações pífias, profundidade zero. Era legal, mas era um ritual narcisista de diversão. O espetáculo continuava e ele insistia em observar tudo de longe, mas não tão longe assim. Estava imerso pela atmosfera, mas ainda assim não fazia parte dela. Era só um estranho? Ou era um "normal" em um lugar cheio de estranhos?
A cerveja acabou. Nem a piadinha retórica da garrafa meio vazia ou meio cheia ele podia mais fazer. Mesmo assim levantou a garrafa à altura dos olhos e olhou delicadamente para o ambiente através do vidro verde translúcido. Não era que podia ser levado a sério, caso alguém visse, mas era algo que ele estava a fim de fazer. E fez, por uns instantes, sem pretensão nenhuma, sem nenhuma resolução cientifica ou utilidade prática. Apenas o fez e depois deixou de fazer. Simples assim.
Seu pensamento fazia piruetas distantes. Longe de tudo aquilo. Deixavam seus olhos fixos em algum lugar no infinito. Aberto a várias más interpretações. Pensando nisso ele rapidamente girou a cabeça pra fixar o olhar em outro infinito. Tão distante quanto o primeiro.
Um tapa, com a ferocidade de um carinho bruto, na altura de seu ombro o trouxe de volta das nuvens alaranjadas daquela noite:
- Nunca mais vire o rosto de mim!
Com um tom de surpresa misturada com uma expressiva interrogação facial, ele não disse absolutamente nada. Apenas ficou olhando com os olhos abertos e sobrancelhas espremidas para aquela figura que se materializava "invasivamente" diante dele. Era uma bela mulher com cabelos loiros ondulados, calças jeans e top branco sem alças. Ela repete mais uma vez, mas desta vez com mais convicção e uma fúria simpática:
- Nunca mais vire o rosto de mim, viu?
Ainda sem entender absolutamente nada ele concordou e, sem querer, perdeu aquele ar holístico e heráldico, pseudo-superior a todos, que escolhera para o seu auto-exílio filosófico daquele fenômeno "cultural". Inconscientemente ele deixava de ser estranho. Parecia que tinha voltado de uma viagem absurdamente longa. Deixava de lado o peso de não achar que fazia parte daquele mundo. Sentia-se relaxado e solto. Livre de inúmeros princípios, conceitos, preconceitos, sofismas e idiossincrasias. Havia vida após a arrogância. E ela era bonita, simpática e carinhosa.
Sentiu-se grato, sinceramente grato. Aceito. Surpreendia-se com a generosidade daquele mundo que antes ele esnobava. Agora percebia o poder de um gesto tão simples e comum, como puxar uma conversa de forma "criativa". E após um bom tempo de sorrisos e palavras despretensiosas, ou não, eles foram comprar uma cerveja juntos. Como se nada existisse antes, nem depois.



2 comentários:
Hummmm... =]
Às vezes, o melhor a se fazer é relaxar mesmo e parar de querer analisar tudo. Misturar-se e participar da euforia sem motivo aparente é muito bom!
Cinema amanhã?
Beijo!
Acho que pode interessá-lo: "A vida de Brian" está à venda na Distrivídeo por R$14,90. Mas só haviam dois. Liguei quando vi, mas você não atendeu.
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