Tão Perto e Tão Simples
Quando começou a cair aquele fino sereno da madrugada ele escancarou as janelas. Queria deixar aquela noite fria entrar em casa, possuir cada canto, cada quarto, cada memória. A casa não parecia mais tão escura e vazia e a penumbra ficara suavemente avermelhada. Abriu os braços e deixou-se molhar. Sentiu cada gota beijar-lhe o corpo todo. Estava lá por inteiro, de corpo e alma. Há muito não se deixava tão sem pensamentos, tão sem filosofias, preocupações ou responsabilidades. A liberdade daquele momento espontâneo o comovia e o possuía. Era atraído por Amy's Song no instante em que começou num volume baixinho no som e completou o ambiente.
Não havia pretensões, objetivos, ou sentido, pra falar a verdade. Era apenas algo que precisava ser feito e não explicado. Não se sentia mais um homem ou uma criança. Não se sentia mais um pequeno nada. Era parte da chuva. Podia sentir seu sorriso pelo corpo todo, tímido e confortável, enquanto seus cabelos ficavam encharcados. Ele sabia que era um momento que nunca iria se repetir, e talvez nem quisesse. Era completo em si.
Completo em si. Mas ele sabia que aquele momento só existia por causa dele, e só existia pra ele. De repente se sentiu pleno. Respirava melhor. Sorria melhor. Sentia-se melhor. Estava ciente de cada músculo, de cada pingo de chuva, de cada intervalo de tempo que levavam para acerta-lhe um parte diferente do rosto. Era incompreensível, sem importância, mas que importava tanto pra ele. Não precisava e nem queria explicar. Apenas era. Era algo dele, pra ele e por ele. Sem mais nem menos.
Seu sorriso virou uma gargalhada gostosa. Sincera. Real. Era pura e perfeita, exageradamente consciente, mas ainda assim involuntária. Gargalhava como uma criança. Tinha a mesma inocência boba e apaixonante. Gargalhava sobre a noite, por todas as gargalhadas reprimidas. Era uma gargalhada tão plena e bonita que podia se sentir completo. Gargalhava com todas as forças e sentimentos, como nunca tinha feito antes.
Sozinho lá, gargalhando feito uma criança feliz, ele começou a chorar. Podia sentir as lágrimas se misturarem com as gotas de chuva. Eram lágrimas tão profundas, sinceras e densas como a plenitude do momento. Eram lágrimas que vinha da alma, como a gargalhada. E de repente, num daqueles momentos “epifânicamentes” únicos, ele entendeu porque chorava. E sentiu bem com isso.
Chorava porque havia esquecido a última vez que se deixou ser tão feliz sem esperar nada da vida, sem exigir nada de alguém, sem sentir tanta pena de si mesmo. Era um momento feliz e só seu. Só seu.
E ficou lá de braços abertos gargalhando e chorando noite à fora na chuva, até os primeiros raios do dia o trazerem de volta das nuvens. Aquele era seu primeiro vôo. E que vôo!



2 comentários:
lindo!
como sempre...
lindo mesmo...
nossa, me senti inspirada até!
bjs
;}
É... quando a chuva vem na hora certa pode provocar sensações muito boas e textos lindos! =]
Assisti a 'Click'. Muito bom! Adam Sandler é phoda! Pode parecer ridículo, mas ele SEMPRE me faz rir e chorar (não é de tanto rir não, é choro mesmo!).
Beijo!
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