Passageiro

Outro dia eu a vi caminhando absorta em seus pensamentos. Ela parecia mais velha. Parecia ter perdido algo do que eu me lembrava. Alguma magia, algum brilho. Não tinha mais os mesmos trejeitos, o mesmo olhar, o mesmo sorriso. O pior é que não fazia tanto tempo assim.
Pensei em ir dar um "oi". Mas talvez ela não lembrasse mais de mim, do meu nome, ou de como ela costumava me chamar. Talvez não lembrasse de nossos segredos, de nossas piadas, de nossas músicas. Talvez não tivesse significado pra ela o que significou pra mim aqueles saudosos e mágicos dias. Mesmo sabendo que isso não passava de uma supra filosofia eu decidi não ir lá.
Olhar pra ela assim me fazia lembrar de planos e promessas feitos sob os lençóis. Planos confortáveis, até sinceros e, ao que parecia, certos. Verdadeiramente certos. Agora são apenas memórias que assombram uma cabeça insegura e cheia de dúvidas. Tudo isso faz pensar de que é feito o passado. Ele existiu realmente? Talvez não. Mas talvez ele seja feito apenas das lembranças de quem quer lembrar, nada mais. Ele não é um filme que possa ser revisto. Ele apenas não existe mais.
Ela parecia desinteressantemente mais velha. Menos linda. Mais preocupada. Menos livre. Mais distante. Definitivamente mais distante. E eu me ressenti por não fazer mais parte disso, por não tê-la mais em meus sonhos e por não fazer parte dos dela, eu realmente queria saber como ela estava. O que ela conquistara. Se estava feliz. Esquecendo todo o orgulho da parede que ergui em torno de sua representação no meu coração após ela ter desligado o telefone pra poder agüentar continuar existindo, sem nenhuma gota desse orgulho, eu realmente quis o bem dela. Eu realmente quis, mesmo sem acreditar em altruísmo, que ela estivesse feliz. Eu quis que ela ainda tivesse aquele sorriso meigo, que a fazia baixar um pouco a cabeça e olhar pra cima pra mim. Por todos os carinhos sob seus cabelos, por todos os beijos no seu pescoço, por todas as vezes que eu pensei não existir nada melhor no mundo que estar com ela, por todas as horas que a observei dormir tão perfeitamente, por todos os "eu te amos".
Mais uma vez ela apareceu e passou na minha vida tão rápido que parece que não houve tempo de pensar nem de fazer tudo. Mas talvez, dessa vez, ela apareceu pra me ensinar algo. Como um contrato só agora realmente finalizado, que me diz que tudo bem eu me apaixonar por outra pessoa. Eu não vou estar traindo nada, nem mesmo meu próprio coração. Talvez ela passou na minha vida dessa vez pra eu me dar conta que é preciso evoluir. É preciso dar o próximo passo para além do meu próprio coração partido.
Ela passou e eu a deixei ir.



3 comentários:
até q enfim alguém escreve na primeira pessoa!
lindo!
lindo esse conto...
linda!
quanta poesia...
quanta tristeza e quanta nostalgia...
Lindo mesmo, mas já coloquei o melhor elogio pelo msn, então... hehehehe.
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