O Último Encontro
Outro sinal vermelho! Sua paciência estava por um frágil fio. Sempre dissera que uma de suas qualidades era ser bastante pontual. E realmente o era. E justamente naquela hora é que ele escolhera pra ficar atrasado. Que sinal demorado!
Era um reencontro muito esperado, muito desejado. E agora que a hora chegara, ele realmente não tinha mais tanta certeza. Sua ansiedade e seu nervosismo lhe deixavam com uma pequena vontade de desistir. Desistir? Nem pensar! Não queria nem cogitar a idéia em voz alta. Mas por dentro tremia e tinha momentos de grandes hesitações. Esse sinal quebrou! Só pode!
Fizera a barba como se fosse a primeira vez. Centímetro por centímetro. Tomou um longo e profundo banho. Engomou mais uma vez a blusa antes de vesti-la. Colocou suas novas lentes de contato. Elas realmente o faziam se sentir menos patético. Pegou a chave do carro, conferiu mais uma vez o dinheiro na carteira e saiu apressado, mas cuidadosamente, para não se sujar nem assanhar o cabelo. Definitivamente estava nervoso. E nada do maldito sinal abrir!
Começou a lembrar das viagens, dos passeios e dos beijos. Andando descalços na areia de mãos dadas na beira do mar. De repente se viu distante dali, num infinito qualquer, encarando as próprias mãos, em um outro tempo, outro local, outros sentimentos. Percebia nas cruéis marcas entre os dedos quanto tempo passara. E quanto tempo passara! Uma eternidade e um dia. Quase não podia lembrar seu perfume, seu jeitinho de entulhar fotografias na carteira, de arrumar quase que compulsivamente as coisas no banheiro. Mas nunca esquecera as músicas. “...It's just the things that happen to me when I’m reminded of you...”.
Só lembrou de voltar pra realidade quando as frenéticas buzinas dos outros carros o avisaram violentamente que o sinal finalmente abrira. Agora podia seguir mais uma vez seu caminho, seu destino. Podia continuar um sonho há muito sonhado. E recorrente.
Quando estacionou o carro quase não podia mais ouvir seus próprios pensamentos. Estava tão ansioso, tão nervoso, tão despreparado. O que falar? O que dizer? O que não dizer? Dês, nove, oito, sete... Ele estava a ponto de explodir. Paradoxalmente tentava desesperadamente manter a pose. Centrado e calmo. Tranqüilo e seguro de si. Porque aquele sinal não demorou uns 2 minutinhos a mais? O corpo frio e um incômodo nódulo na garganta o lembrava de o quanto ele estava tenso.
Pela porta de vidro do restaurante pode vê-la já sentada numa tímida mesa. Ela analisava as próprias unhas como sempre fazia enquanto esperava algo. Estava impecável. Perfeita. Ela tinha esse estranho poder de sempre parecer mais bonita que o dia anterior. Ele pode sentir as mãos geladas, mesmo dentro dos bolsos. O que, com certeza, devia parecer muito estranho a quem passava e o via enfiar e tirar as mãos dos bolsos como que num tique nervoso ao mesmo tempo patético e bizarro.
Só se deu conta quando lhe abriram a porta. Parou e se recompôs. Olhou mais uma vez para a própria roupa conferindo cada milímetro. Cada dobra de sua blusa. De repente parou no primeiro botão de sua blusa. O mesmo botão que olhara quando tudo acabou. Quando seu coração partiu. O mesmo botão, em outro dia, em outra blusa, em outras lágrimas. Mas o mesmo botão que lhe lembrava das últimas palavras dela, o seu duro desdém e a sua torturante frieza: “Vai pra casa agora! Vai pra casa”.
Olhou para corpulento e sorridente recepcionista que lhe abrira a porta e esperava impacientemente que ele entrasse. Podia sentir que possuía nos olhos uma frustração desesperada. A sofrida lágrima se misturava ao seu orgulho ferido. Pediu baixinho uma caneta, como quem se dá conta de que precisa fazer algo que não quer, e escreveu num precário pedaço de papel: “Finalmente estou voltando pra casa”! Arrancou o botão da blusa e pediu ao recepcionista que a entregasse o bilhete, sem dizer nada.



4 comentários:
Três coisas:
1) Tá bom, vou pensar na hipótese da promoção funcionar "both ways". =]
2) Mesmo não tendo muito a ver o comentário sobre o anagrama, eu gostei! Aliás, acho que tá na hora de você arrumar outro post de cultura inútil pra cá, que faz falta.
3) O texto tá lindo! Mas tiraria uma frase que achei meio redundante: "E pelo jeito continuava usando esse poder".
Quando terminei de ler o último parágrafo, senti uma coisa estranha... sei lá, como se ele não fosse tão necessário (só o último parágrafo = as duas últimas frases)... não tô conseguindo me explicar direito, então acho melhor parar por aqui. Nem leva em consideração, não. O que importa quando você escreve é se o resultado "feels right" pra você mesmo! =P Hoje deu a doida em mim e tô achando que as expressões em inglês cabem melhor do que as em português.
Mas só quero deixar registrado que o lance do botão com o recadinho foi perfeito! E você pensou que o botão que o cara deixou pra ela nunca vai voltar pra 'casa'? A 'casa' que ficou na camisa do cara? Dá uma viagemzinha legal.
Beijo!
Adorei o que você escreveu lá no fotolog! =]
E sobre as fotos, não fiz nada pra ficarem com a mesma tonalidade. O que acontece é que em todas elas a iluminação foi por lâmpadas incandecentes. Daí o amarelado. Geralmente, aumento um pouco o contraste porque a fotografia saída tal qual foi feita na câmera tem muito brilho, e também faço um balanço de cores. Mas é isso.
Feliz Natal!
Beijo!
Mudanças feitas... no texto!!
Vixe! Que chique! =]
Me senti editora, agora... hihihi. Brigada por esse presente!
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