Uma vida pra Entender

Por entre os dedos escapa a luz do sol. Sob os cabelos assanhados ele pensava sobre as rachaduras históricas na calçada. Imaginou perder o ônibus (Mas paradoxalmente não se imaginou correndo atrás dele). Uma má idéia que viria à calhar. Ele sempre fazia isso. Tinha lapsos de que sua vida mudaria ao perde aquele surrado ônibus.
Acordava cedo e ia pegar o ônibus como todo mundo. Vestia-se rigorosamente normal. Esperava o ônibus sem fazer contato visual com ninguém, igual a todo o resto da parada. Mesmo assim ele recusava-se a se sentir comum como as outras pessoas. Era o extraordinário disfarçado de comum, como se isso fosse inteligente ou merecesse alguma menção honrosa. Delírios de grandeza.
Ele não podia evitar. Algumas vezes ele simplesmente se sentia melhor e superior que os outros. Prepotência de sua parte sim, mas pelo menos era honesto consigo mesmo. Não que isso afetasse seu jeito sempre educado e simpático de ser. Não o fazia de maneira alguma. Não era preconceituoso.
Tinha um estranho tratado para com o resto do mundo e uma relação bem íntima com o que gostava de chamar "seu espaço". No ônibus sempre sentava no assento do corredor, mas apenas, e somente apenas, quando o assento da janela também estava vazio. Mais delírios de um “sociofóbico” inconsciente.
No ônibus imaginava mil coisas nojentas e imundas. Mas sempre gostou de observar, a certa distância, o comportamento das pessoas. Um dia chegou a conclusão de que todo mundo é burro. Inclusive ele mesmo. Sozinho cada um de nós pode até ser inteligente, mas quando aglomerado, enquanto massa, enquanto povo, não passamos de jumentos batizados. Cada um lutando, não pra ajudar si mesmo, mas pra atrapalhar a todos juntos.
Todo dia fazia o mesmo caminho e tinha as mesmas idéias. Até que um dia chegou em casa e se sentiu extremamente comum. Seus filhos, seus netos e bisnetos, todos perfeitamente normais. Sua sala, seu sofá, sua TV, tudo dolorosamente normal. Mas não se sentiu triste. Pelo contrário. E pode, pela primeira vez, ao se sentir tão comum quanto qualquer um, experimentar algo realmente extraordinário. Ser feliz e comum.



Um comentário:
Achei a mensagem linda! Mas eu tiraria o penúltimo parágrafo. Achei ele meio sem lugar no texto. Como se ele chamasse atenção para um fato que não influi na mensagem principal. =)
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