16.5.07

Duas Lágrimas

Quando viu o chão se aproximando sentiu que estava deixando pra trás algo extraordinário. Era como se o vento nunca mais fosse bater em seu rosto e fazer seus cabelos voar outra vez, como havia feito. Mesmo assim sorriu. Não ficou completamente triste por ter acabado, nem frustrado, levou esse final como uma fase superada e deixada pra trás. Que o fez crescer e transformar.

Sempre quisera uma vida normal. A vida dos outros sempre pareceu mais normal pra ele que a dele mesmo. Sem saber que essa diferença é definitivamente mais normal do que se pode imaginar.

As vezes ainda sobe no parapeito da janela e abre os braços. Desejando sentir aquele algo especial, aquele lugar único em que só ele sentiu o que sentiu. Em que só ele era especial também. Nunca chorou o bastante para cair mais de uma lágrima. Às vezes ficava horas encarando os próprios pés e sua incompreensível vontade de estar colado no chão.

No espelho seu rosto já não era mais o que lembrava. Durante muito tempo, já que seus pés não mais queriam, deixou apenas a mente voar. E como voava! Como nunca tinha feito antes, como nunca faria. Tinha o mundo que precisava para viver e tinha o mundo vivia. Mas um dia seus vôos falharam. Percebeu que não podia, nem queria, mais voar sozinho. E chorou mais de duas lágrimas.

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