A Sala
De repente percebeu, como em uma epifania de supermercado, que a sala era fria. As portas brancas e o sofá bege não diziam absolutamente nada. A natureza morta nas paredes e os vasos sem flores nos cantos o faziam lembrar do quanto era infinito o abismo entre como ele era e como ele achava que ia ser um dia. A impecabilidade do lugar era um monstro que agora o atormentava. O terno e a gravata, os tapetes bem cuidados, os cristais intocáveis, tudo parecia um plágio de uma outra vida, que nada tinha a ver com ele. Sua vida era uma revista de arquitetura e ambientes.
Talvez fosse mais uma crise existencial passageira, como as inúmeras outras que o deixava traumatizado quando o assunto era relacionamentos. Mas aquela realmente o abalou. Passou dias na sala revisando sua própria vida. Onde mudaria, o que mudaria, quando mudaria e a melhor forma de fazer isso. Queria relembrar um pouco daquele garoto criativo e sonhador antes de um dia resolver que não dá pra se apegar muito a sonhos.
Mudou a TV de canto. Reorganizou os quadros. Escondeu os cristais.
Não. Definitivamente não era a sala. Sabia agora que toda aquela implicância com a gélida sala era apenas reflexo de si mesmo. Precisa fazer uma longa viagem, tirar as frustrações do corredor, espanar os medos e deixar planos mal feitos na calçada. Uma viagem para o interior de si mesmo. E férias do mundo, da existência.
Mas mesmo assim comprou um sofá vermelho com almofadas cinzas e brancas e pendurou o pôster emoldurado de "Contrastes Humanos" na parede.



3 comentários:
coou
(?)
>> eu também tenho certa ojeriza pessoal a objetos de cristal... [uhgh]
>> lindo o texto!
Tá, não tenho nem o que falar. :o
Gente, eu tô há muito tempo sem ler nada ou esse texto realmente foi bom.
Até me achei no dever de dizer que tinha lido.
Tá, se eu for comentar cada texto bom desse blog eu passo a noite aqui e não comento tudo. :~
Mas que coisa LINDA o post anterior. :D
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