24.6.08

Muito Tempo Depois

... Do impulso à vontade, tudo é uma questão dar o primeiro passo, nem que seja para a derrota certa. No elevador, conversava sonhos com as lágrimas e fitava seus compreensivos tênis surrados. Ela sequer hesitou, como quem enfia as roupas sujas na máquina de lavar. Rasgou os recados pendurados na parede, juntou as revistas e empilhou os Bob Dylan's num canto vazio. Brusco, mecânico e sem alma. Enquanto o elevador demorava uma eternidade para fazê-lo sumir de sua própria história...

6.3.08

H2O?

Composição Química: Bário = 0,64 . Sulfato = 3,32 . Estrôncio = 0,06 . Bicarbonato = 11,39 . Cálcio = 1,25 . Nitrato = 13,38 . Magnésio = 3,99 . Cloreto = 69,43 . Potássio = 2,90 . Brometo = 0,26 . Sódio = 44,99.

Características Físico-Químicas: pH a 25°C = 4,96 . Condutividade elétrica a 25°C = 2,56 x 10-³ mhos/cm . Temperatura da água na fonte = 30,8°C . Resíduo de evaporação a 180°C calculado = 160,2 mg/L . Gás Carbônico = 450,00 mg/L

Sem gás. Não deixe exposto à luz do sol.
NÃO CONTÉM GLÚTEM.

VALIDADE: 6 meses.

Água.

11.2.08

Waved

Diga-me como responder as perguntas difíceis! Eu já tentei. Hoje acredito que simplificar nem sempre é a coisa mais simples a se fazer. Então me diga o que dizer! Diga-me o que fazer!

O poetinha disse que é impossível ser feliz sozinho. O resto é mar!

Eu abandonei meus sentimentos anos atrás. Sou culpado por não entender mais de paixões e amores. Hoje quero um lugar só meu no qual minhas feridas possam descansar. Acabar o dia tomando uma xícara de capuccino em pó e lendo meus e-mails atrasados. Dormir com a TV ligada no volume baixo e sentar no chão de vez em quando.

Eu sou mar! Sou tudo o que não sei contar.

E quem sabe?

25.12.07

A Sala

De repente percebeu, como em uma epifania de supermercado, que a sala era fria. As portas brancas e o sofá bege não diziam absolutamente nada. A natureza morta nas paredes e os vasos sem flores nos cantos o faziam lembrar do quanto era infinito o abismo entre como ele era e como ele achava que ia ser um dia. A impecabilidade do lugar era um monstro que agora o atormentava. O terno e a gravata, os tapetes bem cuidados, os cristais intocáveis, tudo parecia um plágio de uma outra vida, que nada tinha a ver com ele. Sua vida era uma revista de arquitetura e ambientes.

Talvez fosse mais uma crise existencial passageira, como as inúmeras outras que o deixava traumatizado quando o assunto era relacionamentos. Mas aquela realmente o abalou. Passou dias na sala revisando sua própria vida. Onde mudaria, o que mudaria, quando mudaria e a melhor forma de fazer isso. Queria relembrar um pouco daquele garoto criativo e sonhador antes de um dia resolver que não dá pra se apegar muito a sonhos.

Mudou a TV de canto. Reorganizou os quadros. Escondeu os cristais.

Não. Definitivamente não era a sala. Sabia agora que toda aquela implicância com a gélida sala era apenas reflexo de si mesmo. Precisa fazer uma longa viagem, tirar as frustrações do corredor, espanar os medos e deixar planos mal feitos na calçada. Uma viagem para o interior de si mesmo. E férias do mundo, da existência.

Mas mesmo assim comprou um sofá vermelho com almofadas cinzas e brancas e pendurou o pôster emoldurado de "Contrastes Humanos" na parede.

2.12.07

A Conversa

- Pai!

- Quê, filho?

- Quando é que eu vou crescer?

- Você já está crescendo!

- Mas quando eu vou ser adulto?

- Quando a hora chegar!

- Quando você deixou de ser criança?

- Há muito tempo.

- Você ficou triste?

- Na verdade não. Eu nem senti, quando vi já era adulto. Mas algumas vezes eu ainda sou criança.

- Eu nunca vi.

- Viu sim. Quando jogo video game com você, quando jogo bola com você.

- Mas eu pensei que você se transformava em criança.

- De certa forma, eu me transformo.

- E a mamãe?

- Ela também. Mesma coisa!

- Pai!

- Quê filhão?

- Quando é que a gente sabe que está apaixonado?

- A gente não sabe, a gente sente.

- E como é que a gente sente?

- É diferente pra cada um. Uns querem gritar, outros querem guardar. Uns respiram melhor, outros ficam sem ar.

- E você? Como você sentiu?

- Com 9 anos.

- Porquê?

- Não sei. Mas sei que foi bom!

24.11.07

Um Sincero Post Scriptum

Quando minhas mãos começaram a ficar geladas e minhas pernas inquietas, eu não pude perceber. Era medo na forma de ansiedade. Sabe quantas vezes procuramos respostas pra problemas que já temos a solução? Dentro de mim, não só de mim, existe sim um abismo ressonante, um fantástico vazio, uma escuridão eterna.

Tentei inúmeras vezes dar nomes ao que sentia. Às dores e sofrimentos, à frustrações e arrependimentos. Minha infância disfuncional, meu niilismo congênito, minha severa e projetada autocrítica... meu medo da morte!

Os remédios são muitos. O esforço, muito pouco. A quase estabelecida hipocondria era um atestado do meu medo de envelhecer sem sequer ter uma suspeita de quem realmente sou. Não quero saber, mas quero ter uma pequena esperança de que posso ser uma pessoa capaz. Mas minha ansiedade é recorrente, e talvez seja ela a responsável pelo meu desdém outorgado pelo amor. Ou talvez eu não me aceite como uma pessoa gorda porque já fui magra. Mesmo magro eu era gordo. Talvez eu sofra por não gostar dos espelhos. Mas talvez não.

As religiões sempre foram um assunto nada delicado pra mim. Já fui réu e já fui jurado. É daí que surge o meu terrível medo da morte. O pânico, como costumo chamar. Daqueles que chega a arrancar uma lágrima desesperada antes de poder deitar a cabeça nada sossegada no travesseiro. Nasceu assim a minha famosa insônia. Uma bela montanha pra subir: aversão à religiões, medo da morte, ansiedade, hipocondria, insônia e no topo, uma grande e fantástico... nada.

Minha vida até o ponto em que começaram meus distúrbios foi sofrível, mas superei, sem classe, mas superei. Minha vida desde em que percebi que ia morrer não pode ser resumida. Perdi parte da minha infância por causa de um acidente. Perdi a outra parte dela sendo excluído, algumas vezes por mim mesmo. Perdi parte da minha adolescência com medo de não ser aceito, e a outra parte dela perdi tentando superar o que nunca existiu. Estou perdendo parte da minha vida adulta com o meu medo da morte, talvez a outra parte tenha a tão sonhada e esperada resposta que eu deixei de procurar.

Revendo cada passo que eu dei mais distante de um caminho que se supunha normal, eu não aprendi nada, não mudei nada, não superei medo nenhum. E no final das contas... eu ainda estou aqui.

17.11.07

O Chico em Mim

O santo baixou
O salário chegou
A vida espera no portão
O fim da tarde
Uma alegria
Outra ilusão

O santo chegou
O salário baixou
Vejo ainda folia
O sol nem raiou
E a vida espera no portão
Outro dia